Padre Jesuíta, em trabalho de mestrado, revela que a primeira Virgem Maria do Brasil era indígena e surgiu em Anchieta, em 1590

01/06/2022

A primeira Virgem Maria do Brasil era indígena e foi objeto de devoção no Espírito Santo, Cidade de Anchieta (Aldeia de Reritiba), ainda em 1590. Esta revelação, inédita, será apresentada no livro "Maria Tupansy - O Auto da Assunção de São José de Anchieta", uma publicação do Jesuíta Felipe de Assunção Soriano que será lançada no dia 03 de junho de 2022, às 18h30, em evento presencial, no Santuário Nacional de São José de Anchieta, em Anchieta/ES.

O estudo teve por objeto o auto "Quando levaram uma imagem a Reritiba", preparado por José de Anchieta para a inauguração da Igreja da Missão Jesuítica em 15 de agosto de 1590 (Santuário Nacional de São José de Anchieta). Como propõe o título da dissertação, ao reunir várias nações indígenas para o festim, José de Anchieta proclama que em terras capixabas seja apresentada aos índios do Brasil Maria Tupansy - Mãe de Deus. A originalidade de sua produção propõe uma simbiose singular entre a herança judaico-cristã e as tradições indígenas do litoral brasileiro.

"Nossa aproximação leva em conta alguns elementos que confirmam a originalidade da obra anchietana, ao desvelar a Virgem de Reritiba como mulher, indígena, guerreira e Senhora da aldeia. Destaca-se seu protagonismo cênico, pois todos os atos estão referidos à nossa personagem enquanto comprometida com o projeto catequético jesuíta. Queremos destacar alguns desses elementos que constituem novidade à investigação", explica o padre Jesuíta, Felipe de Assunção Soriano.

O primeiro deles é o fato de o espetáculo não possuir título, isto é, o auto não foi nomeado por José de Anchieta. Os pesquisadores o chamam "Quando levaram uma imagem a Reritiba", reconhecendo o impasse que esse espetáculo nos impõe. Quando chamamos esse auto de Auto da Assunção (nome mais popular), estamos, apenas, fazendo referência à sua apresentação ocorrida em 15 de agosto de 1590.

O segundo elemento leva em conta as raízes profundas da experiência mariana de José de Anchieta, sendo abundante em sua biografia. Destaca-se aqui o seu poema nas areias da praia de Iperoig com mais de 5.000 versos. Se sua devoção e criatividade chamam a atenção, ainda mais deve saltar ao olhar a ousadia que foi apresentar a Mãe de Jesus a partir de elementos próprios do matriarcado tupi.

Essa devoção que o acompanhou remonta sua experiência de juventude ainda na ilha de Tenerife. Como filho das ilhas atlânticas (Canárias), sua devoção à Virgem dos Guanches de Tenerife - Nossa Senhora de Candelária é herança de sua mãe - D. Mencía Díaz de Clavijo y Llarena. Importante saber que essa aldeia de missão constitui uma das primeiras ações do seu provincialato (1579), chamada por ele mesmo nesse espetáculo, na voz do índio principal desta aldeia, "Reritiba meu país" (referência à sua terra natal). Há fortes indícios que vinculam à imagem de Reritiba à devoção dos nativos Guanches de Tenerife.

A devoção mariana dentro da orbis portuguesa possui papel social e político bem delimitado. A Virgem da Assunção era devoção da casa real de Avis, com Igreja principal em Coimbra. Nessa Igreja José de Anchieta fez voto de perpétua castidade, decidindo entrar na Companhia de Jesus. Essa Virgem era o estandarte da reconquista, penhor da expulsão dos muçulmanos e garantia de unificação de Portugal. Entretanto, segundo a pesquisa do Jesuíta, a identidade da Virgem pode estar vedada no texto indigenista de José de Anchieta. Na contramão das duas tendências mariológicas da época, José de Anchieta concebe Maria Tupansy como "servidora", apresentando seu "Filho Lindo" como Senhor e Principal da aldeia (Theotókos Tupi).

No tocante à Virgem de Reritiba, é o próprio espetáculo que confessa sua identidade indígena, pois, como cantam os índios reunidos para o festim: "Ela é a mais linda do nosso povo". A iconografia da Virgem da Assunção não se iguala ao papel atribuído à Virgem de Reritiba, pois aquela está de partida e esta veio para ficar na aldeia. Ela vem à aldeia para os demônios expulsar, caminhando à nossa frente. É o próprio José de Anchieta quem registra que as mulheres tupis vão à frente dos maridos nas batalhas levando os próprios filhos. A partir da prática tupi da "saudação lagrimosa" (Rito de recepção nas aldeias), José de Anchieta apresenta Maria a partir do papel social do matriarcado tupi passando de hóspede à anfitriã, reunindo os índios do norte e do sul do Brasil em sua aldeia.

Na aldeia, o lugar singular da mulher é sempre ressaltado, primeiro, enquanto transmissora dos costumes e da cultura local, e, segundo, pela autoridade que lhes é atribuída. José de Anchieta deixa várias referências nas Cartas do Brasil deste mando típico que as mulheres esposas do principal da aldeia possuíam chamadas de velhas. Ressalta-se o papel social e pedagógico atribuído à figura da Virgem a partir do matriarcado tupi. É essa autoridade que o espetáculo invoca quando diante de sua imagem os principais falam como figura pessoal e coletiva (chefes das aldeias reunidas). É o próprio José de Anchieta quem recomenda que os indígenas chegados naquele dia não esqueçam o seu nome invocando-o continuamente.

Outra novidade é o papel central que o feminino ocupará na catequese anchietana. Nas Cartas do Brasil é comum encontrar na figura das esposas do principal (velhas) a força de resistência a interferência da catequese na vida e nos costumes. De fato, a catequese significou um golpe de morte ao papel ordenador das mulheres nas aldeias, isto é, renegando o feminino a um papel secundário. A Virgem de Reritiba é a resposta para o novo momento do trabalho missionário que encontra caminho para agrupar as várias nações muitas vezes inimigas sob a figura pedagógica do feminino. Esse instrumento catequético devolve a centralidade do feminino na ordem das aldeias tupis.

Outro elemento são as danças indígenas incorporadas aos autos catequéticos como recurso lúdico. Diferente de outros espetáculos, que encontramos a dança como elemento adicional, isto é, no final das apresentações, no Auto de Reritiba as danças ganham outra significação. O que José de Anchieta nos oferece é algo muito semelhante ao festim imaginado pelos guanches em Tenerife (Canárias), pois a dança é algo próprio da aldeia, isto é, daqueles que dela pertencem ou que foram introduzidos. É a Virgem quem vincula tanto os indígenas como os missionários a aldeia de missão. A dança em louvor (Matachis) a Tupansy é a expressão desse tempo novo que se inicia superando as diferenças e rivalidades entre os tupis.

Torna-se não menos importante o avanço teológico que a entronização dessa imagem alcançou. A permanência de Maria Tupansy na aldeia confessa a proximidade de seu Filho Jesus (Tupã). Para os Tupis o nome Tupã atribuído a Deus era distante e abstrato. De fato, a alegoria é marcada pela ideia do trovão como aparece na tradição de Israel - Deus do Sinai. Os tupis não detinham nenhuma expressão de culto ou reverência a Tupã além do medo. Sua relação com essas "divindades" está vinculada ao papel social na agricultura ou pelo manejo do fogo. A distância formal de Tupã é atenuada constituindo a entronização de Maria Tupansy uma "saída mariológica" ao projeto catequético. Agora, Tupã-Jesus, que vivia na casa da velha (sua mãe), vive com os indígenas na aldeia de Reritiba (Tupã Jesus desce do céu e vive na casa de sua mãe - aldeia).

Por fim, como é comum nos autos catequéticos anchietanos, ele nomeia sua personagem concluindo sua apresentação. Curioso é constatar que a nomeação é muito semelhante àquela que os guanches de Tenerife (Canárias) deram a sua Virgem morena ao chamá-la de "Mãe do Sustentador do Universo". A Maria Tupansy no auto anchietano é a "Theotokos Tupi", isto é, a "Tupansy" (Mãe de Deus). Ela é sinal da proximidade de Deus a seu povo, é, segundo José de Anchieta, "nossa companheira de lutas", "aquela que derrota 'anhangá' (diabo) e seu terror", porque "seu vigor ensina-nos a virtude em nossa rota". Por isso que José de Anchieta recomenda que gravemos na memória o nome de Maria Tupansy, invocando-a continuamente.